Seline Beau Pré caminhava distraidamente pelas margens do Rio Sena, presa por uma imagem que nunca a cativara com tanta força como naquele fim de tarde. Era a imagem de Paris manchada pelo esplêndido conjunto de cores que se lançava sobre suas ruas, mergulhadas na opulência da dança dos mais variados tons de amarelo, laranja e vermelho. Era como se tudo aquilo fosse parte de uma orquestra, e Seline, com sua sensibilidade de musica, já era capaz de ouvir uma antecipação do Grande Final, onde todos os instrumentos se ergueriam triunfantes em um grito arrebatador, como que incinerados por um prazer incontrolável, apenas para que este cessasse no instante seguinte. Uma morte súbita e deliciosa, sim, assim seria o fim da música.
Ela foi tirada momentaneamente de seu estado de contemplação quando um transeunte lhe lançou um olhar ríspido, algo já esperado, afinal, não era correto que uma mulher caminhasse a esmo totalmente desacompanhada e Seline sabia que não poderiam vê-la com bons olhos. Era bem verdade, aliás, que mesmo Duane havia pedido para que só se dirigisse ao local alguns minutos antes do anoitecer, de modo que não passasse muito tempo perambulando pelas ruas sozinha. Mas ela não pode ao menos tentar resistir ao desejo de ver a luz do sol refletida nas águas do rio pela última vez.
Não era fácil conceber o fato de que nunca mais poderia observar tal imagem de novo. Ou talvez não fosse difícil concebê-lo, talvez ela simplesmente não pudesse acreditar... Mas ela acreditava. Havia visto Duane, e era impossível negar que ele não era humano. É claro que acreditava. Era apenas a natureza onírica dos acontecimentos que a confundia.
Parecia-lhe absurdo que houvesse cortado os cabelos e os penteado até virarem a seda mais lustrosa. Parecia-lhe absurdo que tivesse colocado seu mais lindo vestido - todo tecido em cetim azul turquesa - e que estivesse naquele momento esperando que seu demônio viesse buscá-la para presenteá-la com nada mais nada menos do que todas as horas, todos os minutos, todos os segundos do mundo. E então o tempo se perderia na eternidade, que seria sua para que pudesse amar a tudo para sempre.
Era então o sonho lhe voltava à mente. “O Sonho” era a forma a que ela se referia às visitas de Duane por no inicio acreditar que era do que se tratavam elas, e pelo prazer que a mordida lhe despertava. Lembrava-se de que não havia sido como naquele momento, quando era a estranheza dos fatos que dava a Seline a sensação de irrealidade. Naquela época ela realmente acreditava estar sonhando. Tinha a impressão de que, logo após adormecer, era despertada. Não para um estado de total consciência, mas para uma espécie de letargia. Ela sentia a mordida e então a sensação de enfraquecer. Era quando erguia os olhos e o via. No inicio, ela apenas o via.
Aquele homem de feições tão perfeitas que poderia iludir qualquer um fazendo-se passar por um anjo, não fosse pela frieza que banhava sua expressão e pelo tom de cinismo e a malícia que embriagavam sua voz. Mas naquela época ela ainda não conhecia sua voz. Tudo o que conhecia eram seus cabelos castanhos e seus olhos negros como os dela, que a estudavam no escuro.
É claro que quando acordava de manhã, mesmo com aquela lembrança tão nítida e a sensação de fraqueza, fazia questão de repetir infinitas vezes que aquilo havia sido só um sonho, nada mais. Ela era apenas uma mortal, e isso é o que os mortais fazem quando se deparam com o desconhecido: criam qualquer desculpa e se forçam a acreditar nela. Isso quando não fingem simplesmente não notá-lo, que era o que Seline havia feito quanto ao cão. Ela nunca temera o cão, assim como não tinha certeza de que em algum momento havia temido Duane. A verdade era que aquela presença, mesmo que um tanto assustadora, a acalmava.
O cão a seguia o dia todo e, quando ela estava em casa, ficava perto da janela a encarando com aquele olhar ao mesmo tempo tão passional e comedido. Ao contrário dos outros cães, aquele não pedia nada nem se interessava pelos pedaços de carne que ela lhe oferecia. Só queria observá-la e podia passar horas a fio na frente da casa. Normalmente só partia ao anoitecer. E voltava, ela sabia, voltava quando a noite já estava em seu ápice, para presenteá-la com o sonho mais doce. Mas não naquela forma de animal, embora, quem sabe, tão selvagem como um.
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