A noite se estendia fria e delicada, com a suavidade de um silêncio embebido nos últimos resquícios de vida latentes. Estes surgiam apenas como os ruídos de uma caleça, passando pela rua de hora em hora, ou de algum caminhante noturno, sendo esse um mendigo sem rumo ou um bêbado vagabundeando com sua felicidade clandestina. Nenhum dos sons provocados por um ou por outro eram, no entanto, capazes de quebrar a melodia continua do silêncio. Mas, pelo contrário, eram absorvidos e sufocados tanto por ele quanto pelas trevas da madrugada.
Se esgueirando entre as sombras, mergulhada em uma existência só lembrada por si própria, se encontrava uma figura que não se encaixava em nenhum desses tipos. Consistia em um jovem, com aproximadamente vinte anos de idade e de uma beleza sobre-humana. Seu caminhar era firme a ponto de remeter à dureza da cólera, mas seus passos eram leves e seus movimentos graciosos, demonstrando a elegância digna de um verdadeiro cavalheiro. Apesar de seu rosto ser delineado com contornos suaves, sua expressão não era muito distante de sua forma de andar, conferindo ao jovem um tom ao mesmo tempo nobre e terrível. Sua capa negra esvoaçava à brisa gélida, se confundindo com as sombras provocadas pelo grande manto que cobria a terra naquelas horas malditas, quando o sol a muito já estava abaixo da linha do horizonte.
Foi quando ouviu uma melodia tocada em piano, a qual julgou ser belíssima, ainda que melancólica. A música vinha de um cômodo localizado no segundo andar de uma das casas da rua. Então o homem, tomado por uma curiosidade súbita, voltou-se em direção a casa e subiu pela parede – apoiando-se em uma viga – em direção a janela. Depois, já sentado em seu largo parapeito, tomou o cuidado de esconder seu corpo atrás da cortina de renda branca que cobria a janela pelo lado de dentro e, como esta estava fechada, apoiou seu rosto no vidro, deixando que sua respiração o embaçasse.
Ele viu uma jovem sentada ao piano, os dedos magros deslizando agilmente sobre as teclas do instrumento. Seus cabelos negros ondulavam pelas costas, contrastando-se com a seda branca de sua camisola que, por sua vez, confundia-se com a cor de sua pele, tão pálida a ponto de emitir uma espécie brilho perolado. O olhar do estranho se perdeu na postura da jovem, orgulhosamente solene. Contornou sua cintura e passou para seus pulsos, para as veias salientes...
A melodia mudou subitamente, ganhando uma sonoridade eloqüente que beirava o desespero. Ao atingir esse ponto voltou curiosamente à melodia original.
Ele procurou por uma posição em que fosse possível observar o rosto da jovem sem que ficasse a mostra, imaginando se sua expressão seria semelhante à música que ela tocava, mas tudo que encontrou foi a falta de expressão. O rosto dela estava frio, duro, como se houvesse sido esculpido em pedra. Apenas seus olhos, tão escuros quanto os cabelos, indicavam vivacidade, pois neles havia uma faísca de intensa passionalidade. Ela tinha aquele olhar que sabe-se dizer alguma coisa, mas não se pode decifrar o que.
Em pouco tempo, a jovem deixou o piano e se dirigiu à cama, cega ao fato de que o estranho a observava. Dessa forma, se rendeu ao silêncio com grande amor, sem nenhum receio de aceitar sua suprema superioridade.
O som do choro marca o nascimento. Mas a palavra final é da morte, e a palavra final é o silêncio.
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